Bolsa Família no Brasil: uma visão diferente

Esta semana, em uma discussão acirrada com alguns amigos, um deles levantou a questão da bolsa família no Brasil e lembrou que isto parecia muito mais um instrumento de sustentação eleitoral do “projeto PT” do que uma política pública de inclusão social.

Confesso que também tinha uma visão parecida, até que uma pessoa que respeito muito fez a seguinte observação: “Paulo, você já analisou que se esses 40 milhões de brasileiros não recebessem esta bolsa, simplesmente elas não teriam o que comer?… Eram pessoas que viviam e provavelmente ainda vivem em uma linha de pobreza absoluta. Miséria e fome mesmo!

Concordei e comecei a fazer alguns cálculos. Esta classe, que simbolizava a miséria do Brasil, simplesmente não participava da base de consumo brasileira. Marginalizados e esquecidos pelo poder público por anos a fio, formavam um mundo a parte do que se pretendia em termos de construção de uma nação desenvolvida, um povo para que não foi dada a oportunidade de educação, saúde básica e irremediavelmente fadado a uma cruel sobrevivência.

Com o Bolsa Família, aproximadamente 40 milhões de brasileiros começaram a ter acesso a uma quantia mínima mensal para comprar alguns itens da cesta básica, como arroz, óleo, um pouco de proteína… Suficientes para eliminar a fome. E o que significou isto em termos econômicos? Por incrível que pareça isto não só significou muito, como acabou inserindo uma quantidade imensa de brasileiros em um novo tipo de mercado. Um mercado próprio que sobrevive fornecendo produtos básicos e que movimenta valores aproximados de R$38 bilhões por ano, ou seja, quase U$20 bilhões, o equivalente ao PIB de muitas nações pequenas. E sabe onde estava este dinheiro? Concentrado na renda de alguns brasileiros e, o pior, em projetos públicos de pouquíssima relevância social.

Portanto, independente da questão política associada a isto, o Bolsa Família, mais do que qualquer outro programa social já realizado no Brasil, não só permitiu a redução substancial da fome, como possibilitou um significativo avanço econômico para o país, ao incluir em um novo tipo de “mercado” 40 milhões de brasileiros.

Para as crianças da próxima geração, agora minimamente alimentadas, quem sabe poderemos oferecer uma educação básica de qualidade, permitindo que daqui 20 ou 30 anos esta nova classe social brasileira possa ser um mercado mais robusto e qualificado, tornando o Brasil uma nação verdadeiramente mais desenvolvida. Gostem os críticos do governo Lula ou não, o primeiro passo foi dado! O próximo, que é a universalização de uma educação crítica e de qualidade, é o próximo grande salto deste país.
Estou concluindo este artigo olhando pela janela do avião que se prepara para pousar em Brasília e pensando em como é bom ter uma visão daqui de cima. Tanto ainda por se fazer… Mas continuo sonhando.

Abraços a todos aí em Manaus.

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8 Respostas to “Bolsa Família no Brasil: uma visão diferente”

  1. George Lins Says:

    Amigo Paulo, até então não tinha visto esta questão pelo prisma que vc com clareza colocou.

    Parabéns pelos canais de comunicação que você tem aberto para responder as dúvidas ou críticas da Sociedade.

    Como cidadão, sonho em ver melhores representantes do povo saindo das urnas. Digo que isto ocorrerá em doses homeopáticas.

    Conhecendo o trabalho que vc realizou na CMM, não tenho dúvidas em afirmar que vc será uma dessas salutares “doses”

    George Hamilton

  2. Jane Says:

    Muito bonito deste ângulo, o social tem este poder tocante no coração das pessoas, porém torna-se um círculo vicioso. Infelizmente a bolsa-família em vez de ser uma ajuda, passa a ser a principal renda e quando esta torna-se ameaçada,mais pobres querem ser.
    Coisas do ser humano. Puro comodismo, poucos, rarissimos mesmos são aqueles que saem desta condição de sobrevivência e passam para os seus descendentes um futuro melhor e digno sem “ajudas” do governo seja lá este qual for.
    Educação abre a mente e os olhos, esta não é a meta por enquanto, tanto que temos aí instalado no país o Construtivismo, um método que só funciona onde a cultura realmente vem de berço, onde há muita leitura e uma herança familiar de conhecimento, muito diferente de nossa vivência, onde o programa favorito é o reality show e o livro mais vendido é o de auto-ajuda.
    Quando eu era criança minha tia me chamava e perguntava “Que nota é esta?” hoje a mãe pergunta da professora “Que nota é esta?” e o aluno tem que passar de qualquer forma, sabendo ou não, reprovar nem pensar! sendo assim, estudar para quê?se eu já estou passado.
    Isso se aplica a saúde também, onde quem trabalha paga,e quem não trabalha usufrui.E quem trabalha e tem um poder aquisitivo melhorzinho paga duas vezes pois faz convênios para ter um atendimento razoável para si e seus filhos, enquanto quem não trabalha e vive do bolsa-famíllia que sai dos programas sociais e que tem sua origem orçamentária vindo da previdência daquele que trabalha e contribui mas que paga convênio e escola particular para o filho, ainda reclama que é mal atendido e que não tem vaga para todos.
    Vamos repartir a conta, assim dá para todos com certeza.
    Sonhar ainda não cobra impostos.

  3. Paulo Says:

    !!!

  4. Marcelo Costa Says:

    Paulo,

    Parabéns pelo excelente blog e pela oportunidade de expressão.
    Particularmente já acompanho seu trabalho há algum tempo e vejo-o como uma célula viva de expressão e renovação. Acredito em você!

  5. Hugo Penaranda Says:

    Paulo,

    Assista à opinião do próprio Lula com relação ao bolsa família: http://naosenhor.blogspot.com/2010/01/lula-e-o-bolsa-familia.html

  6. BANDEIRA Says:

    Interessante, há alguns anos ficamos a mercê de planos falíveis e de pouco provimento verdadeiro, o bolsa família, é claro que se deve reconhecer, é um projeto de interesse público e de suma importância ao crescimento e desenvolvimento de futuras gerações, porém, dizer que ficamos à mercê de tantos outros planos que passaram por nosso pais de não renderam provimento de sustentação à sociedade…um tanto quanto ingênuo ou de pouco estudo o texto observativo, pois em governos anteriores tivemos sim, grandes projetos que perduram até hoje, inclusive o Fome Zero, que para os que não sabem, foi criado pelo Betinho e não de âmbito político como alguns querem, o auxílio gás, luz para todos e assim vai-se criando nomes para projetos que já existem. Concordo com voÊ Di Carli, há muito o que fazer e devemos sonhar sempre, afinal só tem esperança quem sonha. Acredito nãoestar rebatendo apenas um desejo de quem o acompanha politicamente, e creio também que alguém de sua postura profissional, não precisa de pessoas bajuladoras… precisa sim, ouvir a opinião de quem convive o dia a dia de verdade, daquelas pessoas que necessitam ser assistidas por seus representantes. Devo confiar no trabalho de nossos representantes, e o Amazonas precisa confiar, mas nossos representantes precisam se mostrar confiáveis e não simplesmente apoiar por ocasião. Que sejamos guiados por quem está à frente de nosso barco, o prático na vida de muitas pessoas que dependem de planos, projetos e tomadas de decisão, não tão somente um pequeno agrado para seus anseios.

  7. Rozineide Nascimento Says:

    Paulo,

    Conheço seu trabalho desde os tempos quando ainda circulavas no PORTO de Manaus, estudando melhorias para quem por ali passava.
    Parabéns pelo comentário, o tenho hoje como sendo um político que em muito pode ajudar ao desenvolvimento de Manaus.

  8. martinha Says:

    Boa tarde,
    sou assistente social e li essa sua visão sobre o Bolsa familia. Como cristã, penso na fome, nas mesas vazias, e toda essa visão de marginalidade social.Não deixaria um ser humano bater na minha porta com fome e ficar sem comida. Em parte concordo que essa ‘BOLSA MISÉRIA” tem colocado comida na mesa de milhoes de brasileiros. Afinal o seu “Zé ” ta com fome de comida a ele. Mas amanha voce volta e o seu ZÉ vai estar com fome de novo.
    Convenhamos que esse programa não soluciona o desemprego, nem a miseria, nem a falta de educação . Precisamos de politicas de educação escolar que levem essas crianças para escola o dia inteiro com professores bem remunerados e capacitados para educa-los além dos portugues e matemática, O Brasil não aguenta mais emendas e soluções paliativas. Um politica pública verdadeira e compromissada com os problemas sociais isso sim é resolver, é gerar condições para que essas pessoas sejam capazes de recuperar sua dignidade ao invés de receber esmolas, torna-los pensantes, capazes de se auto gerir. Até quando??????? bom manter cidadãos alienados não? eles nao pensam e votam em qualquer coisa que lhes de um pedaço de telha de amianto ou de sexta básica, etc ou compre o seu voto. Deputados ricos e professores quase pedindo esmola. Acha que esse pais crescerá assim.?

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