DIÁLOGO SEM FIM…

Charge do Sponholz

Este texto foi compilado dos anais do plenário da Câmara Municipal de Manaus, em discurso que proferi quando morreu o Senador Jefferson Peres. Lembro-me da reação emocionada de boa parte da platéia que ouviu atentamente as seguintes palavras. Subverti todas as regras de discurso para promover um monólogo batizado de “Diálogo sem fim“. Esta é uma reflexão que gostaria de deixar, principalmente às dúvidas que algumas pessoas manifestaram pela internet sobre política e políticos no Brasil. Peço paciência, pois no final deste longo post as coisas parecerão ter um pouco mais de sentido.

Como vai Jefferson, tudo bem? Estive pensando em fazer um discurso para homenageá-lo na Câmara, casa que abrilhantastes com sua passagem como vereador. Deixa… depois te conto minha idéia. Tenho te visto tão pouco ultimamente. Nosso último encontro foi no aeroporto quando, por coincidência, embarcávamos para Brasília no mesmo vôo. Cumprimentaste-me com teu olhar firme e satisfeito.

Aproveitei os minutos antes da chamada para embarque para engraxar meus sapatos. E o engraxate comentou que votou no senhor duas vezes para Senador e que tinha muito orgulho do voto que havia dado. Confesso que me senti orgulhoso por ti também! Mas, fiquei pensando, será que ele se lembra que a pouco mais de um ano o senhor disputou o cargo de Vice-Presidente da República? Eu não entendo até hoje porque os amazonenses não retribuíram com votos todo este orgulho que sentem por sua atuação.

Por que sorris Jefferson? Puxa vida, hoje deves estar cansado mesmo, nem quer se levantar… Ainda um dia desses estava relembrando a viagem que fizemos juntos para Humaitá. Visitamos o Batalhão do Exército, acompanhados pelo Lino Chíxaro. Toda aquela liturgia de oficiais e soldados perfilados prestando-lhe continência, e o Lino comenta, “toda esta formalidade é uma homenagem prestada a um Senador, um príncipe da República”. Depois, seguimos para um almoço com nosso correligionário do PDT, o advogado Terrinha, que comemorava seu aniversário. No retorno, sobrevoávamos a BR 319 e comentei que achava um erro investir no asfaltamento de uma rodovia construída sobre 600 km de uma várzea. E observamos juntos que era mais apropriado o Governo Federal aproveitar os “restos mortais” da rodovia para implantar uma ferrovia. Parece inclusive que o Eduardo Braga andou recentemente levantando esta idéia, que, aliás, foi colocada no programa de governo que defendi durante minha candidatura ao Governo do Estado em 2006. A exemplo das Escolas de Tempo Integral que juntos defendemos e, agora, o Eduardo, de forma ainda tímida, começa a implantar. Bem que tu me ensinaste, que “as idéias só são realmente boas, quando são maiores do que os homens que as tem…”

Mas, Jefferson, estás mesmo confortável? Não sei, nesta posição, deitado o tempo todo… A propósito, aquele projeto do Kassab, da poluição visual, que adaptamos juntos, está parado nas comissões da Câmara. Espero que antes do final do meu mandato nós consigamos aprovar. Bem que tu me disseste que ia dar uma polêmica imensa. Com paciência acho que vou conseguir. E Brasília? Que coisa desagradável! Uma bomba atrás da outra, uma insanidade coletiva entre os políticos está adiando as grandes reformas tão necessárias ao Brasil. Os debates estratégicos da reforma tributária e política vão acabar ficando para o período pós-eleitoral, perdemos mais um ano. Uma pena!

Senador. Permita-me fazer uma sugestão? O Congresso Nacional deveria discutir uma emenda constitucional que proibisse a reeleição no Brasil, em todos os níveis, não só para os cargos do executivo, mas também para o legislativo, de vereador a Senador. Tenho a impressão que isso acabaria com muitos vícios do nosso sistema democrático e estimularia a renovação permanente das casas legislativas. Isto acabaria fortalecendo a sua tese de “pragmatismo ético”. Esta é outra coisa que o pessoal confunde com defesa da moralidade.

Estás rindo de novo, mas é verdade! Muita gente acredita que moral e ética são princípios doutrinários ultrapassados, ou pior, usados como marketing “pessoal” de alguns políticos e, por conseqüência, soam como falso moralismo. Olha Jefferson, ainda me lembro da primeira conversa que tivemos após eu ter sido eleito Vereador. Você foi incisivo, ao me dar a minha primeira lição política: “Paulo, iludem-se os políticos que acham que o Brasil não está mudando. O povo cada dia mais começará a acompanhar a verdade. Portanto, o político moderno deve sempre falar a verdade, mesmo que isto lhe custe alguns dissabores. Em política você deve avaliar o momento certo de revelar algumas informações, opiniões ou idéias, e isto não significa omissão ou conivência, significa inteligência! Agora, uma vez decidido o uso da palavra, o que sair da tua boca tem de ser a verdade do seu pensamento. Assim você construirá a sua credibilidade. E por último, nunca perca a paciência, nunca, pois isso levará tempo para ser absorvido pela sociedade descrente dos políticos, estes conselhos são o que chamo de fundamentos da ética pragmática…”

Jefferson, sério mesmo. Esta tua posição nesta cama está me incomodando. Apesar de parecer que o senhor é fisicamente maior! Tem certeza que não preferes se levantar? Não queres continuar esta conversa no pátio da sua casa? Outra coisa que quero te falar, os assessores do meu gabinete ficaram impressionados com o senhor relendo, em pé, os “12 MANDAMENTOS DO BOM GOVERNANTE“, de sua autoria, que mantenho naquele enorme painel na recepção da minha sala. Eles ficaram orgulhosos de ver o autor olhando a obra e visitando nosso ambiente de trabalho.

Jefferson. Percebo que teus olhos estão fechados, estás pensando algo importante? Hoje, quero te poupar sobre minhas observações críticas em relação às bobagens que o Prefeito vem fazendo. Mas continua vivo na minha memória aquele artigo que publicastes na A Critica sob o título “Vou-me embora para Pasárgada” que inferes criticas elegantes a ele. Um puxão de orelha bem ao seu estilo. Aliás, quero que se lembres dos amigos, se lá estiver um dia!

Mas, que interessante esta tua cama. É de madeira, forrada e ornamentada com flores! Não durma Senador, ainda gostaria de te perguntar coisas importantes…

É acho que dormiu… Acho que vou ter que colher a tua assinatura de anuência para condecorá-lo com a medalha de ouro “Cidade de Manaus” em outra oportunidade.

Que sono pesado. Deve estar sonhando, passeando por Pasárgada…

Senhoras e Senhores Vereadores, servidoras e servidores desta casa, audiência aqui presente.

É comum ouvirmos por todo o país que a política brasileira está enxovalhada. Os políticos, salvo raríssimas exceções, decepcionam o seu povo… Pois é, o Senador Jefferson Peres era uma dessas exceções. Orgulho-me de ter compartilhado da sua convivência e orientação nestes últimos cinco anos, diga-se de passagem, justamente o período que estou na vida pública.

Justa é a homenagem que o país lhe presta! Só não posso concordar com alguns exageros, como as afirmações de que o Brasil perdeu e que a política já não será a mesma. Declarações de pura emoção, mas não necessariamente verdadeiras. Não senhoras e senhores, o Brasil na verdade ganhou com a vida e a dedicação de Jefferson Peres as causas nacionais. O Senado Federal pode até ter perdido um dos seus mais diletos e atuantes membros, mas em contrapartida, todos os homens e mulheres de bem deste país ganharam mais um herói.

Jefferson Carpinteiro Peres será, a partir de agora, nome de ruas, logradouros ou até praças. Será estudado e analisado por suas teses e comportamento, criticado por alguns e elogiado por muitos. Deixa a vida para tornar-se inspiração indo para um estágio superior.

Um legado de esperança para jovens políticos que, capitaneados por sua lembrança, acreditarão em um país melhor. Liderado por bons homens e mulheres que, no princípio da verdade e do que é certo, cuidarão de construir a cidade mítica de Bandeira. O Brasil dos nossos sonhos. Em algum lugar há de persistir a esperança que continuará batendo nos milhares de corações que em ti acreditaram.

Durma nosso pequeno grande homem, pois, só assim poderás viver nesta Pasárgada que almejamos também em nossos sonhos.

Anúncios

3 Respostas to “DIÁLOGO SEM FIM…”

  1. olavo Says:

    A figura do senador Jefferson Peres ilustra dignamente a esperança em termos homens públicos a altura do cargo que ocupam como representante do povo no Congresso Nacional. Pode não ter sido uma unanimidade em todas as suas ações, mas, com certeza, representou sobejamente este momento em que o povo exige dos políticos além de eficiencia, honestidade e zelo para com os interesses do cidadão brasileiro.

  2. ALMIR Says:

    Meu caro Paulo magnifico discurso, era um homem cujo carater nao se questionava um so minuto, um bom representando do nosso estado no congresso nacional isso nao tinhamos duvidas. Agora no plano supeior como voce disse que sirva de exemplo para os politicos mais novos. Meu caro paulo belissimo discurso, vou fazer uma copia para arquivar com meus documentos.

  3. Vitória Says:

    Grande Senador Jefferson Peres , este sim era um grande homem , de caráter inquestionável e princípios éticos honrosos , lastimável perda para o nosso país .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: